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Não basta ser craque de bola: os desafios da formação de jovens atletas no Brasil

Copa São Paulo de Futebol Júnior é uma vitrine para novos talentos, mas também um retrato das desigualdades e desafios

Publicado

em

por Diego Leite de Barros*

Todos os anos, a Copa São Paulo de Futebol Júnior reúne jovens atletas de todas as regiões do Brasil, muitos vindos de cidades pequenas, distantes dos grandes centros, que chegam à maior capital do país carregando a expectativa de que aqueles poucos jogos podem representar a chance de uma vida inteira. Para muitos, atuar em São Paulo, no estado que concentra alguns dos clubes mais vencedores do futebol brasileiro, com títulos nacionais e internacionais, parece o passo definitivo rumo ao profissional.

Mas quem acompanha de perto esse processo de formação sabe que é preciso tirar um pouco do romantismo dessa narrativa.

Ao longo da minha atuação em processos de profissionalização e em avaliações técnicas voltadas ao agenciamento de atletas, observei que o desempenho pontual em uma competição como a Copinha raramente conta a história inteira. Em poucos dias, jogadores são analisados, comparados e rotulados, muitas vezes sem que fatores determinantes para a carreira profissional estejam completamente desenvolvidos ou visíveis.

Essa percepção é reforçada por dados recentes. Em um levantamento sobre a trajetória dos atletas que disputam a Copinha, 78% acabam deixando o futebol ou passam a ter valor de mercado inferior ao de jogadores da Série D. Apenas 5,36% alcançam patamar médio compatível com a Série B, enquanto 14,5% seguem vivendo do futebol em níveis próximos ou equivalentes à Série D, geralmente em clubes de menor visibilidade.

O futebol ficou mais físico. A intensidade do jogo aumentou, a média de estatura cresceu e a exigência atlética passou a ser contínua, não episódica. Um atleta que se destaca na base pode ainda estar em fase de crescimento, adaptação neuromuscular e amadurecimento fisiológico. No profissional, ele enfrenta adversários mais fortes, mais rápidos e mais resistentes, em um ambiente que cobra regularidade, não lampejos.

Nesse cenário, a estrutura pesa. Clubes com melhor organização oferecem alimentação adequada, controle de carga, acompanhamento fisiológico e rotinas de recuperação. Em realidades mais precárias, o jovem atleta precisa lidar com deslocamentos longos e pouco descanso. Dois jogadores com talento semelhante podem ter trajetórias completamente diferentes apenas pelas condições ao redor.

A estrutura familiar também entra nessa conta. Sono, disciplina, capacidade de manter rotina e suporte emocional influenciam diretamente o rendimento. O futebol profissional exige constância, e não apenas talento bruto. Sem esses pilares, a transição da base para o alto rendimento se torna ainda mais difícil.

Os números do mercado ajudam a dimensionar essa realidade. Relatório da CBF, com base nos rendimentos médios dos atletas em 2015, apontou que 82,4% dos mais de 28 mil jogadores registrados no país ganhavam até R$ 1.000 por mês, valor pouco acima do salário mínimo da época. Outros 13,68% recebiam entre R$ 1.000 e R$ 5.000, enquanto apenas 0,40% ganhava entre R$ 50 mil e R$ 100 mil, e somente 0,12% ultrapassava os R$ 200 mil mensais.

Para quem trabalha avaliando atletas, a Copinha precisa ser lida com cuidado. São poucos jogos, em condições extremas, que dizem pouco sobre o que aquele jovem pode entregar dali a dois, três ou cinco anos. Decisões tomadas só a partir desse recorte costumam ser injustas e, muitas vezes, apressadas.

Formar um jogador profissional é um processo longo, feito de rotina, adaptação e suporte. A Copinha é parte desse caminho, não o ponto de chegada. Ela ajuda a observar, mas não resolve a equação.

Talento segue sendo fundamental. Só que, no futebol de hoje, ele sozinho não sustenta uma carreira.
 

* Diego Leite de Barros é educador físico, fisiologista do exercício pela Unifesp e responsável pelo treinamento de mais de 500 atletas amadores

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